Rede de Assistência às Vítimas de Violência Sexual identifica casos em escola

No primeiro dia das ações de promoção e orientação para os estudantes alagoanos sobre o abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes, os técnicos da Rede Estadual de Atenção às Vítimas de Violência Sexual (RAVVS) da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) conseguiram identificar, por meio de um trabalho sério e didático, três vítimas desses crimes. A ação aconteceu na segunda-feira (6) na Escola Estadual Professor Mário Broad, localizada no bairro Jatiúca, em Maceió, mas outras unidades de ensino também receberão atividades durante a programação do Maio Laranja.

Nas palestras ministradas pela psicóloga Elma Liliane, a enfermeira Andrea Teodozio e a assistente social Valdja Moura – todas da Sesau –, os estudantes aprenderam como identificar o abuso sexual de forma precoce e como reagir diante de tais situações, além de como denunciá-las.

“Eles precisam evitar o abuso sexual praticado muitas vezes dentro da própria casa e também a evitar o contato com estranhos – principalmente os conhecidos através das redes sociais, entre outros cuidados. A orientação é que a criança ou o adolescente saiba dizer não, diante das investidas de um adulto, quando se sentir incomodado, e que denuncie o caso aos pais e aos professores, que grite, corra e peça socorro, se for necessário”, disse Elma Liliane.

Foi o caso de Suzana (nome fictício), de 16 anos, estudante do 9° ano, que resolveu denunciar o agressor após ouvir atentamente o que os profissionais da Sesau disseram ao longo de duas horas. Segundo ela, o abuso acontecia dentro da própria casa, pelo seu padrasto, de 40 anos, quando a adolescente, à época, tinha nove anos. A violência acontecia, na maior parte das vezes, durante a madrugada, já que a mãe da adolescente tem problemas de audição e, por isso, não conseguia ouvir ao que sucedia.

“Tinha dias que eu vestia três peças de roupa na parte de baixo, além de um casaco, para que ele não me tocasse. Não adiantava muito porque quase toda madrugada ele vinha até o meu quarto abusar de mim. Nunca tive coragem de contar pra ninguém, pois ele sempre dizia que ia matar minha mãe e minha irmã mais nova, que, por sinal, também foi abusada por ele aos seis anos de idade”, contou Suzana.

A família, que se resume na mãe e na avó, a culpam por ter demorado tanto em não denunciar o agressor. “Como não aguentava levar esse peso nas minhas costas, no ano passado tomei várias cartelas de remédio na tentativa de cometer um suicídio. Entrei em coma. Só queria que as pessoas entendessem que eu não ia pra cama com ele por livre e espontânea vontade. Era obrigada. Só sabe e sente quem passa na pele”, disse a adolescente, aos prantos. “Quando estou aqui na escola sinto-me segura, mas, ao chegar em casa, é um verdadeiro pesadelo.”

A partir de agora, Suzana será atendida pelos profissionais da RAVVS, onde terá o acompanhamento multiprofissional de toda a equipe, sobretudo o tratamento psicológico. “Tirei forças para denunciá-lo diante de tudo que eu vi hoje na sala de aula. Embora eu esteja em um relacionamento, ainda existe um bloqueio! Estou com depressão por conta dele. Quando chega alguém mais velho eu sinto medo. Não consigo ficar mais sozinha. Sinto-me vazia, oca. Não me sinto bem em vê-lo por aí nas ruas, enquanto eu estou aqui marcada para o resto da minha vida. Com certeza, ele deve estar aí abusando de outras crianças e adolescentes. O lugar dele é na cadeia”, disse, revoltada.

Elisa (nome fictício), de 14 anos, disse que, por não ter o costume de conversar sobre o assunto dentro de casa, achou a palestra de extrema importância porque entendeu melhor sobre como os agressores agem e as consequências que isso pode trazer para a saúde física e psicológica de uma criança ou de um adolescente.

“Gostei de saber que estou protegida e que existe uma forma da gente entrar em contato de maneira segura e secreta. Já sofri um abuso aos seis anos pelo vizinho da minha vó. Como eu era muita nova, não tinha a proporção de que aquilo podia representar. Contei pra minha avó e ela pediu pra eu me afastar dele. E assim aconteceu”, contou.

Já Joana (nome fictício), de 15 anos, amiga de Elisa, falou que, na semana passada, quando estava no ônibus indo para a escola, foi vítima de um agressor. “Estava com a minha bolsa no colo e, do nada, o homem pediu pra eu retirar. Percebi, de cara, que ele queria colocar as mãos nas minhas partes íntimas. Me levantei e sentei em outro lugar. Não fiquei com tanto medo porque tinha bastante gente. Mas sei que, assim como eu, muitas adolescentes passam por isso e acabam silenciando por não ter conhecimento de como evitar. Essa palestra foi muito esclarecedora”, ressaltou.

Para Andrea Teodozio, enfermeira da RAVVS, o momento foi importante, pois está sendo possível trabalhar a prevenção, impedindo dessa forma que novos casos aconteçam sem que o adolescente e a criança saibam de seus direitos.

“Estamos entrando nas escolas como forma de prevenir o abuso e ensinando os estudantes o que eles podem e o que não devem fazer. É uma maneira de contribuirmos para que esse tipo de violência deixe de acontecer, que ainda estão omissas por muitas crianças e adolescentes. Percebi que a ação foi muito rica, já que eles deram valor ao tema, com perguntas e discussões”, destacou a enfermeira.

Dados – Desde que foi criada, em outubro do ano passado, até a segunda quinzena de abril deste ano, a RAVVS já conseguiu assistir e proteger, entre casos suspeitos e confirmados, 413 pessoas em situação de vulnerabilidade. Deste total, 379 são do sexo feminino, sendo 320 casos entre o grupo de crianças e adolescentes de 0 a 17 anos.

Para Valdja Moura, assistente social da RAVVS, aproximar o tema que é tão real e próximo do público infantojuvenil é, portanto, estimular os pequenos para que saibam que existe uma rede dedicada a atendê-los de forma segura e, principalmente, humanizada.

“São pais, tios, avós, um amigo que frequenta muito a casa e tem a confiança da família. Eles dizem para a vítima não falar, muitas vezes ameaçam fazer algo contra alguém que a criança gosta ou dizem que não vão acreditar nela, que é normal. A criança acaba se sentido culpada, acha que o autor abusou dela por causa de algum comportamento que ela teve. Mas a criança tende a demonstrar o que passa, sobretudo para um adulto de confiança”, garantiu.

Ao final da ação, foram distribuídos kits contendo um bloquinho de notas e caneta com o telefone da Rede, um folder explicativo com todas as orientações do que eles precisam fazer, além de um bombom. As atividades seguem até sexta-feira, passando pelas escolas Adeilza Maria Oliveira, na Chã da Jaqueira; Professora Miram Marroquim e Theonilo Gama, no Jacintinho; e Doutor Fernandes Lima, no São Jorge.

Ascom – 08/05/2019

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