Clubes de tiro registram aumento na busca por cursos, principalmente por mulheres

A escolha de Jair Bolsonaro (PSL) como o novo presidente do Brasil e a possibilidade de mudanças na legislação de controle de armas — uma das prioridades do futuro governo — levaram clubes de tiro do Rio a registrar, nos últimos dias, um aumento na procura por cursos que capacitam cidadãos para utilização de armas de fogo. A revogação da lei, facilitando a posse de armas, integra o plano do próximo governo.

— As pessoas têm ligado mais para cá, desde a última segunda-feira, perguntando se podem fazer o curso e aprender sobre o uso correto de armas. Notamos também um aumento na quantidade de emails recebidos — aponta Rildo Anjos, de 52 anos, presidente do Clube de Tiro Calibre 12, em São Gonçalo, na Região Metropolitana.

O instrutor de tiro e militar da reserva destaca também que aumentou, em cerca de 40%, o número de mulheres matriculadas nos cursos oferecidos pelo clube de tiro. Considerando as associadas, passou de zero para seis mulheres em dois anos. Rildo afirma ainda que o assunto precisa ser mais debatido, para que seja desmistificado.

— As pessoas têm procurado mais os treinamentos, contudo, ainda são bem cruas nesse assunto. É necessário deixar claro que ninguém sai de um clube de tiro querendo praticar crimes nas ruas. A gente lida com armas, e isso ainda assusta.

Em 2003, o empresário Armando Piccinini, de 53 anos, decidiu buscar o clube de tiro após viver um episódio traumático de violência. No ano anterior, o pai de Armando foi assassinado em um assalto e ele decidiu que, dali em diante, seria o responsável pela própria segurança. Além dessa questão, encontrou a paixão por um esporte.

— Eu quis aprender a atirar para me defender. Mas quando você tem a chance de conhece o tiro desportivo, acaba encantando com todos os benefícios trazidos: mais autoestima, melhora na concentração e o raciocínio aflorado — assinala Piccinini, que é dono de uma empresa de turismo com excursões voltadas para o tiro esportivo: — Estamos organizando uma viagem a Brasília para acompanhar a posse de Jair Bolsonaro como presidente. O pacote, incluindo passagem aérea e hospedagem, sai a R$ 1.250.

No clube, os cursos variam entre R$ 1 mil e R$ 1,3 mil, de acordo com o tipo de treinamento e o nível de aprofundamento. Cursos para iniciantes, por exemplo, têm carga de 12 horas, ministradas no mesmo dia, e incluem aulas teóricas sobre normas de segurança, legislação, fundamentos do tiro e mecanismos de funcionamento de pistolas e revólveres. Os alunos têm direito a 100 disparos e saem com um certificado, diz o Extra.

Rildo explica que há duas formas de se adquirir legalmente uma arma no Brasil: por meio da Polícia Federal, para defesa pessoal, onde a arma só pode ser mantida no interior da residência ou no local de trabalho; e pelo Exército, para uso de atiradores desportivos, com o trânsito autorizado da casa ao local de uso. Em ambos os casos, deve-se obedecer a requisitos legais da Lei federal nº 10.826, de dezembro de 2003. Também cabe ao Exército a fiscalização nos clubes de tiro, que precisam cumprir as normas.

— Ainda há um certo preconceito, as pessoas te olham de forma diferente quando sabem que você é atirador ou instrutor de tiro. Acham que só por isso você se torna uma pessoa violenta ou criminosa. Muitos alunos nem gostam de contar que fazem aulas de tiro em clubes — diz Rildo.

Hoje, para obter a posse é preciso ter mais de 25 anos, ocupação lícita e residência certa; não responder a inquérito ou processo criminal e nem ter sido condenado; comprovar capacidade técnica e psicológica e declarar efetiva necessidade da arma. Já o porte é proibido para pessoas que não integram forças militares e de segurança. Segundo dados levantados por Rildo, o estado tem hoje cerca de 20 clubes de tiro.

Entre as mudanças sugeridas na revogação da lei, o projeto reduz a idade mínima para 21 anos, habilita quem responde a processo criminal, desde que não seja por crime doloso, e retira a obrigatoriedade de apresentar uma necessidade para ter a arma. Para a revogação, é preciso que a nova lei seja aprovada no Congresso, por maioria simples, passe sem alterações pelo Senado e receba a sanção do presidente.

O governador eleito pelo Rio, Wilson Witzel (PSC) também já afirmou o alinhamento a Bolsonaro e propôs criar mais clubes de tiro no estado. Durante um dos debates, o então candidato explicou que a flexibilização do estatuto vai ajudar a controlar a violência, explicando que “hoje o bandido vê a população como uma presa fácil”.

Contrariando as perspectivas dos clubes, uma pesquisa Datafolha realizada nos dias 24 e 25 de outubro em 341 municípios, e divulgada no dia 27, apontou que a maioria dos entrevistados é favorável ao controle de armas. Para 55%, “a posse de armas deve ser proibida, pois representa ameaça à vida de outras pessoas”. Já para 41%, “possuir uma arma legalizada deveria ser um direito do cidadão para se defender”.

01/11/2018

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