Participantes da XIX Lavagem do Bonfim no Poço pregam a tolerância religiosa


A XIX Lavagem do Bonfim do Poço reuniu centenas de pessoas no domingo (13), final da tarde, para reafirmar o fortalecimento da fé das religiões de matriz africana e teve como palavras de ordem a tolerância, o respeito, a harmonia no enfrentamento à intolerância religiosa e a união entre as representações de lideranças das diversas casas de axé de Maceió, dentre elas a do pai de santo Célio Rodrigues, do bairro Pajuçara, um dos organizadores do evento de lavagem das escadas da Paróquia do Nosso Senhor do Bonfim, no Poço, há 19 anos.

As manifestações culturais, políticas e religiosas ocorreram na praça em frente à Paróquia, com apresentações do Maracatu Baque Alagoano, e do grupo Águas de Oxalá, do Benedito Bentes II, além da presença de centenas de seguidores e simpatizantes das religiões de matriz africana, de lideranças das diversas casas de axé de Maceió e região, e representantes da Rede Alagoana dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana, Fundação Palmares, da Prefeitura de Maceió, e do Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Mulher e dos Direitos Humanos (Semudh).

A atendente de call center, Somaia Gonzaga, mãe de santo no terreiro da casa do Pai Célio, na Pajuçara, participa do evento desde o início há 19 anos. Para Somaia, a Lavagem do Bonfim é muito importante para a comunidade afrodescendente porque é um “grito de união, de respeito à nossa crença, é um não à intolerância religiosa”. Ela explica que a Lavagem da Escada do Bonfim é fruto do sincretismo religioso (apropriação dos símbolos da Igreja Católica pelos escravos no Brasil colonial para cultuarem a fé nos orixás africanos sem serem percebidos pelos seus donos), entre o Nosso Senhor do Bonfim e Oxalá. Era a forma descoberta pelos escravos para manterem a fé africana viva.

Segundo o pai de santo Célio Rodrigues, o evento é uma ação cultural, política e religiosa das casas de axé com o apoio do poder público. Pai Célio reforçou em seu discurso a necessidade de manter cada vez mais a integração e a harmonia entre as comunidades afrodescendentes e a busca de apoiadores para o enfrentamento à intolerância religiosa e a garantia do direito constitucional de praticar a fé livremente.

Para a secretária de Estado da Mulher e dos Direitos Humanos, Maria Silva, o momento atual do país é delicado e preocupante para todos os povos tradicionais. “A intolerância religiosa é crime e devemos tratá-la com rigor, apesar de muitas lideranças hoje estarem incentivando a violência para atingir os terreiros e locais sagrados. Precisamos de união, e da participação de todos para que possamos fortalecer nossa luta em busca da paz, da harmonia e do respeito”.

Ascom – 14/01/2019