A música do “Patropi” e uma Nêga chamada Teresa


Prestígio: Simonal ao dar uma canja aos jogadores da Seleção Brasileira de 1970 em plena Copa do Mundo daquele ano

“País Tropical” em Música e futebol – Parte 6

Em julho de 1969, Jorge Ben levou Wilson Simonal, seu amigo, para um show de Gal Costa, com quem o primeiro estava tendo um caso. Naquela apresentação, Gal cantou “País Tropical” e Wilson Simonal adorou a música, descobrindo com o seu amigo que ela já estava prometida para ser gravada pela cantora baiana.

Simonal marcou um horário no estúdio e, no dia 22 de julho de 1969, carregou Jorge Ben para lá, onde sua banda (o Som Três formado por César Camargo Mariano no piano, Toninho na bateria e Sabá no baixo, mais o naipe de metais e Chacal na percussão) já o aguardava.

Chegando lá, o cantor fez Jorge Ben mostrar a música para César, que bolou o arranjo em cima da reorganização que o próprio Simonal havia feito, retirando estrofes inteiras e incluindo um bis no qual apenas as primeiras sílabas das palavras eram pronunciadas: assim, “Moro num país tropical” virou “Mó’ num pa’ tropi”. César ainda colocou uma coda em que se apropriava da letra do samba “Eu Sou Flamengo”, de Pedro Caetano, que havia sido gravada por Jorge Veiga em 1954, o que acabou levando a um processo no qual o autor ganhou direitos sobre esta versão da música.

Lançada em agosto de 1969, rapidamente a canção tornou-se um enorme sucesso casando com o clima de ufanismo que o regime militar utiliza em sua propaganda no país. Isso acabaria corroborando, futuramente, para a fama de delator que o cantor teria no futuro, embora o mesmo não tenha acontecido com Jorge Ben. A música seria tema de uma sátira de Juca Chaves, intitulada “ Paris Tropical” e que geraria a tréplica de Jorge Ben, gravada por Simonal como “Resposta”. A canção ainda receberia uma versão em italiano sendo lançada com sucesso naquele país em março do ano seguinte.

O Patropi e a derrocada do ótimo Simona

A música “País Tropical” revela uma faceta curiosa de Simonal que era sua capacidade de difundir e criar gírias que rapidamente eram incorporadas ao vocabulário popular. Foi dele a ideia de cortar as palavras ao interpretar a canção de Jorgen Ben e, assim, surgiu, por exemplo, o termo “patropi”, uma maneira simpática e debochada de se referir ao país sem liberdades do regime militar.

Nega Tereza, ilustração da artista e blogger Nice Lopes

“País Tropical” fez parte da trilha sonora do documentário “Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei” sobre “Simona”. No documentário, Simonal é apresentado como um dos grandes cantores pop da década de 60 e 70, com turnês de 340 shows em um ano, marcado até a morte por um erro, misto de ingenuidade e arrogância. Negro, debochado e talentoso numa época de brancos, sisudos e nada criativos, o artista foi algoz de si mesmo ao sucumbir ao poder conquistado pela fama.

Simonal, Ninguém Sabe o Duro Que Dei é um tributo ao cantor assumidamente mascarado, que em plena ditadura militar conseguiu emplacar um sucesso atrás do outro e, principalmente, orquestrar multidões. O documentário lava a sua alma e a de sua família, através de imagens de arquivo (algumas antológicas) e depoimentos de personalidades que viveram aquele momento ao seu lado ou como espectador. São nomes conhecidos como Chico Anysio, Miéle, Nelson Motta, Ziraldo, o pesquisador Ricardo Cravo Albin, Pelé, Toni Tornado, Artur da Távola e Jaguar entre outros.

O autor da música Jorge Benjor

No filme, se conhece ou se relembra um ícone da MPB e, talvez, o primeiro entertainer brasileiro por sua facilidade de apresentar, cantar, dançar e fazer rir. E o primeiro artista internacional que enfrentou a música americana. E como é fácil perceber isso através das imagens. Ver o domínio que exercia sobre o público. Como aconteceu quando convidado para abrir o show de Sérgio Mendes em um festival no Maracanazinho com 30 mil pessoas em suas mãos. O sucesso do parceiro intimidou o próprio Mendes de entrar no palco. Esse era Wilson Simonal. O vozeirão, às vezes escrachado, da “pilantragem” de Carlos Imperial, de “Meu Limão, Meu Limoeiro…” ou de “País Tropical”.

Inovador por natureza, Simonal lançou faixas na cabeça e grossos cordões no pescoço, parecendo um precursor do “bling bling” do Hip Hop americano. E mesmo assim, foi riscado da história musical do País. Por acreditar ter sido vítima de um golpe financeiro, Simonal usou suas ligações com o poder, típico dos famosos que com todos falam sem necessariamente se relacionar, e pediu ajuda para membros do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), órgão repressor da época, para darem um violento “corretivo” em seu contador.

Benjor, e os jogadores Zico e Júnior, do Flamengo

O episódio foi a deixa para a fama de dedo duro da direita, apontada pela mídia e a esquerda brasileira, manchando para sempre a carreira dele. Simonal, Ninguém Sabe o Duro Que Dei é um documento emocionante, conduzido com a ajuda dos filhos Max de Castro e Simoninha, e que revela como uma mera questão trabalhista o transformou de garoto propaganda da Shell a braço direito da ditadura. Sua frase “Eu não existo na música brasileira”, reproduzida por sua segunda esposa Sandra Cerqueira, é lapidar.

Simonal calou-se aos 62 anos, não sem antes provar sua inocência, embora nunca reconhecida pelo público. Abandonado pela classe artística, mídia e pelo público de uma maneira geral, morreu no ostracismo. Crucificado, curiosamente, não pelo erro imperdoável da tortura, mas por um crime que não cometeu e que a sociedade, influenciada por um personagem marcante na história da religião, não perdoa: a delação.

Aqui o link com a música e a letra: https://www.vagalume.com.br/wilson-simonal/pais-tropical.html

Moro num país tropical
Abençoado por deus
E bonito por natureza
Mas que beleza
Em fevereiro
Em fevereiro, tem carnaval
Tem carnaval,
Sou flamengo e tenho uma nega chamada teresa (2x)
sambaby, sambaby,
Posso não ser um “band leader”
Pois é
Mas lá em casa todos meus amigos,
Meus camaradinhas me respeitam,
Pois é
E essa é a razão da simpatia,
Do poder, do algo mais e da alegria
Moro num país tropical
Abençoado por deus
E bonito por natureza,
Mas que beleza em fevereiro, em fevereiro
Tem carnaval,
Tem carnaval tenho um fusca e um violão
Sou flamengo e tenho uma nega chamada Teresa.

Wellington Santos

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Até a próxima!!!

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Wellington Santos
Wellington Santos milita no jornalismo desde 1994, quando iniciou a carreira como revisor do extinto O JORNAL. Daí formou-se na área pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), e teve passagens como repórter e editor em jornais como Gazeta de Alagoas (por duas vezes), A Notícia e Primeira Edição. Atualmente atua como repórter no Jornal Tribuna Independente e exerce ainda a função de assessor de Comunicação desde 2003 no Governo do Estado. Como repórter esportivo, foi correspondente e colaborou para o Portal nacional Lance! e rádios do eixo Sul/Sudeste, além de colaborar para o Canal Esporte Interativo. Como reconhecimento ao trabalho desenvolvido, foi premiado duas vezes como repórter esportivo no Prêmio Braskem de Jornalismo em 2013/2014, e em 2016 com a melhor matéria no Jornalismo Impresso na editoria Saúde. Em 2012, foi à final do Prêmio Nacional Abdias Nascimento, realizado no Rio de Janeiro, com reportagem sobre os 100 anos do Quebra de Xangô em Alagoas.