Mulher de Domingos Montagner, Luciana Lima fala sobre a morte do ator e as homenagens de sua companhia

A atriz Luciana Lima fala pela primeira vez sobre a morte do marido, Domingos Montagner, e as comemorações de 20 anos da La Mínima, companhia de teatro e circo fundada pelo ator – evento que é também uma homenagem

Seis meses depois do acidente, ela recebeu Marie Claire para sua primeira entrevista, em que fala sobre os momentos de dor e também sobre a reconstrução da vida. Entre os projetos que trazem significado a seus dias, estão as comemorações dos 20 anos da La Mínina, companhia de teatro na qual trabalha como produtora, fundada por Montagner e por Fernando Sampaio, “o outro casamento de Domingos”, como ela mesma brinca. O nome vem dessa união: se um ator só não faz uma trupe, no mínimo há de haver dois.

Fundada em São Paulo no ano de 1997, ainda sem o nome La Mínima, a companhia montou diversos espetáculos que conjugam técnicas do circo e do teatro, como À La Carte (2001, roteiro de Paulo Rogério Lopes), Luna Parke (2002, texto de Montagner e Chacovachi) e A Noite dos Palhaços Mudos (concepção da La Mínima com Alvaro Assad, 2008).

A celebração das duas décadas inclui uma mostra de repertório, com seis espetáculos criados e exibidos ao longo desses anos, sendo três deles de rua. Também traz a público a inédita adaptação da ópera Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo, assinada pelo dramaturgo Luís Alberto de Abreu e com direção de Chico Pelúcio, do grupo mineiro Galpão. O projeto contempla ainda uma exposição com vídeos e objetos de cena e segue até junho em unidades do Sesi em cidades paulistas. Seu conteúdo começou a ser concebido em 2015, com a participação de Montagner. “Queremos comemorar [os 20 anos] apresentando espetáculos que percorreram muita estrada, realizando uma exposição com objetos que andaram conosco”, escreveu o ator ao idealizar o projeto, em um texto que foi agora recuperado para poder ser incorporado ao material de divulgação da mostra.

Nesta entrevista, Luciana também revela pequenos detalhes sobre a personalidade do marido. Tinha perfil metódico e detalhista. Não guardava, por exemplo, objetos quebrados ou remendados. Gostava de acordar cedo e ter um tempo só para si. Agenor, palhaço que interpretava na La Mínima desde 1997, não era de sorrir, fazia mais o tipo sisudo, contraponto com o festivo Padoca, que Fernando encarnava. Conta ainda que os atores Fernando Paz e Filipe Bregantim substituem Montagner em papéis originalmente interpretados por ele, nas peças concebidas durante toda a trajetória do grupo.

Leia trechos da entrevista. A íntegra da conversa está na edição de abril da revista Marie Claire, que chega às bancas no dia 1º:

Marie Claire Como conheceu Domingos Montagner?
Luciana Lima
Foi em 1999, em Natal, onde eu morava. Ele foi convidado para se apresentar na cidade e fiz o receptivo da companhia durante o evento. Eu era integrante de um grupo de teatro, o Clowns de Shakespeare. O Domingos ficou 15 dias por lá, tempo suficiente para a gente trocar umas figurinhas. Depois voltou para São Paulo e namoramos quase um ano a distância. Fui me envolvendo, me inteirando sobre o universo do circo e aquilo me deu “coceira”. Mudei para São Paulo em novembro de 2000, quando a linguagem circense estava entrando no cenário teatral.

MC Como era a cena circense no Brasil naquela época?
LL
Mambembe. No começo, a gente montava espetáculos com coisas que tinha em casa, emprestadas dos amigos. O marco foi o ano de 1999, quando um festival no Sesc reuniu artistas de circo e o pessoal de teatro, que se juntaram com muita força. Foi arrebatador mesmo. Todos saímos dali muito extasiados e montamos um núcleo, o Central do Circo, porque aquela energia não podia morrer. Nossa vontade era renovar a linguagem, tornar o circo mais profissional, atrair investidores. Depois, veio a política pública. Em janeiro de 2004, a gente alugou uma lona e foi para Boiçucanga, no litoral de São Paulo. Foi uma experiência incrível. Durante um mês, fizemos sessão de terça a domingo. Filas e mais filas. Começamos a ganhar visibilidade e respeito com o Circo Zanni. As pessoas olhavam e falavam: “Nossa, pode fazer circo assim, sem animais, tão humano?”.

MC Quando Domingos morreu, você pensou em desistir da comemoração de 20 anos da La Mínima?

LL O acidente abriu aquele buraco e ficamos sem chão. Ainda é muito turvo o que vivi nas primeiras semanas, mas em nenhum momento passou pela minha cabeça desistir. À medida que o tempo foi passando, as coisas ficaram mais claras. Um mês depois, já comecei a pensar nos 20 anos da companhia junto com o Fernando. Estávamos conversando e ele ficou todo sem jeito de me perguntar o que faríamos. Entendemos que não dava para parar. A celebração virou uma homenagem ao Domingos.

MC No dia do acidente, como você recebeu a notícia?
LL
Não acompanhei as redes sociais, onde o desaparecimento era assunto desde as 14h. Quando deu umas 15h, o empresário dele me ligou, eu estava no galpão. Senti um tom preocupado em sua voz. Aí começou o processo. Liguei para a escola dos meus filhos, pedi que saíssem mais cedo para evitar que deparassem com o burburinho. O mais velho estava em casa. Assim que cheguei, disse a ele o que estava acontecendo, e ele respondeu: “Não vai acontecer nada, meu pai sabe nadar e não pode ir contra a correnteza. Vai se deixar levar, alguém vai encontrá-lo”. Concordei e pedi para não entrar em redes sociais. Perto das 18h, chegaram os pequenininhos – muitos amigos nossos já estavam ali conosco. Expliquei o que acontecia. O do meio começou a chorar, depois o menor. Mônica Albuquerque, diretora de produção da Globo, ligou pouco depois e disse: “Lu”. Nesse “Lu”, eu senti. “Você não tem uma boa notícia para mim?”, perguntei. Ela disse que não.

MC Como é se readaptar nesse momento após a perda?
LL É um exercício. Estamos ressignificando os lugares que frequentávamos com ele, alimentamos memórias. Mas as crianças assimilam a perda de outra maneira: o agora é mais importante do que o amanhã.

MC Então são eles que a ajudam…
LL
Diariamente. É o imediatismo deles que me sustenta. Estamos aprendendo a viver nessa configuração de família.

marie claire

29/03/2017